Valuation ganha espaço na gestão de PMEs e deixa de ser tema restrito a venda de empresas

As pequenas e médias empresas representam cerca de 97% dos negócios em atividade no Brasil e respondem por aproximadamente 70% dos empregos formais. Apesar desse peso na economia, grande parte dos empreendedores ainda não consegue responder a uma pergunta básica da gestão empresarial: quanto vale a própria empresa. O valuation, termo usado para definir o valor de um negócio, começa a ganhar espaço entre PMEs como ferramenta de planejamento, e não apenas como etapa de uma eventual venda.

“O Brasil chega a 2026 com mais de 24 milhões de empresas ativas e um ambiente de negócios que passou a exigir decisões cada vez mais técnicas. Em um cenário de juros elevados, crédito mais seletivo e investidores mais criteriosos, cresce entre pequenos e médios empresários a necessidade de compreender o valor real de seus negócios”, afirma Theo Braga, CEO da SME The New Economy.

Segundo ele, o faturamento isolado já não sustenta a avaliação de uma empresa. “Margem, previsibilidade e governança são os fatores que efetivamente constroem valor no longo prazo”, diz Braga. A mudança de mentalidade tem levado empresários a olhar com mais atenção para indicadores que vão além da receita mensal.

Como avaliar uma PME

A especialista em valuation Helô Cruz explica que não existe um único método para definir o valor de uma empresa. Assim como ocorre no mercado imobiliário, a valoração depende da percepção do mercado, do momento econômico e das características do negócio. Ainda assim, alguns pontos são considerados básicos em qualquer análise, como resultado operacional, lucro líquido e rentabilidade.

Braga reforça que o processo de valuation em PMEs começa pela organização das informações essenciais da empresa. Entram nessa lista faturamento, margem, estrutura de custos, previsibilidade de receita, dependência do fundador, concentração de clientes e nível de governança. “Essas passaram a ser variáveis centrais na construção de valor”, afirma.

O executivo destaca que ferramentas digitais ampliaram o acesso das pequenas empresas a esse tipo de análise. “Hoje já existem calculadoras gratuitas de valuation, com inteligência artificial incorporada, que oferecem às PMEs metodologias antes restritas a consultorias especializadas. A discussão sobre valor deixa de ser pontual e passa a integrar a rotina de gestão, planejamento e tomada de decisão. Muitos ainda não sabem, de fato, quanto suas empresas valem”, observa.

Para Joao Kepler, CEO da Equity Group, o primeiro passo não é técnico, mas conceitual. “A partir do momento em que uma pequena ou média empresa decide calcular seu valuation, ela precisa primeiro mudar a lógica com que enxerga o próprio negócio. Não se trata apenas de somar faturamento e aplicar uma fórmula, mas de entender se a empresa consegue crescer de forma estruturada, manter resultados consistentes e reduzir sua dependência do fundador”, afirma.

Fragilidades expostas pelo valuation

O cálculo do valor do negócio costuma trazer à tona problemas que muitas vezes passam despercebidos na rotina. Dependência excessiva do dono, concentração de receita em poucos clientes e ausência de processos claros aparecem com frequência nesse diagnóstico. Para Braga, esse é um dos principais ganhos do valuation. “Funcionam como ponto de partida para ajustes que antes eram adiados. Empresas em crescimento conseguem construir uma visão mais clara sobre quanto valem hoje e o que precisam ajustar para valer mais amanhã. O principal ganho desse movimento não está no número final apresentado, mas no impacto direto sobre a gestão”, diz.

Paulo Tomazela, CEO da Bossa Invest, ressalta que muitas PMEs precisam começar organizando o básico antes de adotar modelos sofisticados. Segundo ele, a escolha da metodologia é decisiva. Aplicar fórmulas complexas sem dados confiáveis ou tentar replicar parâmetros de grandes companhias em negócios ainda em estruturação é um erro comum.

“Empresas maduras costumam ser avaliadas por múltiplos de mercado ou fluxo de caixa descontado. Já no universo das PMEs e, principalmente, das startups, o valor está muito mais no potencial de escala do que no resultado atual. Por isso, é fundamental combinar métricas financeiras com indicadores de crescimento, tamanho de mercado, diferenciação competitiva, nível de tecnologia e capacidade de execução do time”, orienta.

Quando o empreendedor compreende não apenas quanto a empresa vale, mas por que vale esse número, o valuation passa a ter uso contínuo. Ele orienta decisões sobre captação de recursos, entrada de sócios, expansão, precificação e sucessão empresarial. “No caso das startups, esse cuidado é ainda maior”, conclui Tomazela.

Crescimento do número de empresas no país

O interesse crescente pelo valuation acompanha a expansão do empreendedorismo no Brasil. O país encerrou 2025 com mais de 24 milhões de pequenos negócios ativos, após um recorde de abertura de empresas. Foram 5,1 milhões de novos negócios no ano, alta de 18,6% em relação a 2024.

O setor de serviços liderou, com 64% das novas empresas abertas. O comércio respondeu por 21% e a indústria por 7%. São Paulo concentrou 29% das aberturas, seguido por Minas Gerais, com 11%, e Rio de Janeiro, com 8%. Entre os microempreendedores individuais, atividades de entrega, transporte de cargas e publicidade se destacaram. Já entre micro e pequenas empresas, serviços de saúde e apoio administrativo lideraram os registros.

Fonte: Isso É Dinheiro
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