Vale do Silício testa IA como “mão de obra digital” e influencia decisões de empresas brasileiras

A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a ocupar funções centrais em empresas do Vale do Silício, nos Estados Unidos. Em uma região conhecida por antecipar tendências tecnológicas, o uso de sistemas autônomos já aparece tanto na rotina das companhias quanto no ambiente urbano, com serviços baseados em nuvem, veículos autônomos e softwares capazes de interagir diretamente com usuários.

Durante o evento Brazil at Silicon Valley, realizado na Califórnia, profissionais brasileiros que atuam em empresas americanas relataram como a tecnologia vem sendo incorporada ao dia a dia corporativo. O encontro reuniu empreendedores, investidores e executivos interessados em acompanhar esse movimento. Entre os participantes, houve sinalização de que práticas adotadas nos Estados Unidos podem influenciar estratégias no Brasil.

IA redesenha processos e reduz níveis hierárquicos

Um dos casos apresentados foi o de Pedro Franceschi, que construiu sua trajetória no ecossistema de tecnologia americano após deixar o Brasil. Ele participou da fundação da Brex, empresa que começou oferecendo cartões corporativos a startups e passou por mudanças após a redução dos investimentos em digitalização no período posterior à pandemia.

Segundo o executivo, a resposta da empresa envolveu uma revisão completa da operação. Áreas consideradas fora do foco foram descontinuadas, processos internos foram redesenhados e ferramentas de IA generativa passaram a ser incorporadas em diferentes etapas do trabalho. A reorganização também incluiu cortes de estruturas intermediárias.

“Esse foi um processo poderoso porque eliminamos duas camadas de gestão na empresa e reconhecemos todos de volta à sua atividade-fim, ou seja, no que essas pessoas são realmente boas”, afirmou.

A partir dessas mudanças, a empresa passou a operar com sistemas automatizados que desempenham funções específicas sob supervisão humana. Esses recursos são descritos como “empregados virtuais”, integrados às equipes. Atualmente, a companhia atende clientes como OpenAI e Anthropic na área de pagamentos e projeta ampliar sua presença no mercado.

Pesquisa indica impacto relevante no mercado de trabalho

O avanço da inteligência artificial nas empresas tem sido acompanhado por estudos que buscam medir seus efeitos. Uma pesquisa da Universidade Stanford analisou 51 casos de uso da tecnologia em organizações de diferentes países. Em 45% das situações, houve demissões associadas à adoção de IA. Em outros 19%, executivos afirmaram que deixariam de contratar.

O levantamento reúne dados de 41 empresas distribuídas em sete países, incluindo companhias de grande porte. O estudo foi liderado pelo economista Erik Brynjolfsson, conhecido por pesquisas sobre tecnologia e produtividade.

Um dos autores, Alvin Graylin, afirmou que o impacto pode atingir parcela significativa da força de trabalho. “Quando se juntam as demissões e a interrupção nas contratações, devemos ver um efeito em dois terços da força de trabalho”, disse. Os dados foram coletados entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, antes de avanços recentes da tecnologia.

Graylin também alertou para possíveis efeitos econômicos mais amplos. Ele mencionou o caso dos Estados Unidos, onde a proteção social é limitada e a poupança média das famílias é considerada baixa. Segundo ele, um movimento de cortes em larga escala poderia gerar instabilidade. Esse cenário encontra paralelo em parte da realidade brasileira.

Entre redução de custos e aumento de receitas

Embora parte das empresas utilize a IA para reduzir custos, o estudo aponta que a tecnologia também pode ser aplicada para ampliar receitas. Elisa Pereira, coautora da pesquisa, destacou a importância de definir métricas adequadas para avaliar resultados. “As pessoas que estão nesses projetos precisam de apoio dos seus líderes. Perguntar quantas pessoas a tecnologia vai substituir na empresa não é uma boa estratégia; é preciso buscar outras métricas”, afirmou.

Os exemplos analisados abrangem setores variados. Há aplicações em recrutamento, com triagem automatizada de candidatos, e em instituições financeiras, com digitalização de documentos físicos. O levantamento também mostra que a implementação da tecnologia nem sempre ocorre sem dificuldades.

Dos 51 casos avaliados, 61% foram considerados bem-sucedidos. Dentro desse grupo, no entanto, a mesma proporção enfrentou falhas antes de alcançar resultados consistentes. O dado sugere que a adoção da IA envolve ajustes contínuos, mesmo em empresas estruturadas.

Aplicações práticas avançam e chegam ao Brasil

Especialistas apontam que a inteligência artificial pode ser mais eficaz quando direcionada a áreas com escassez de mão de obra. Mat Velloso, que já liderou equipes de IA em grandes empresas de tecnologia e hoje atua como consultor, citou exemplos em que a tecnologia foi aplicada para resolver problemas complexos. Ele também destacou desafios no Brasil, como o grande volume de processos judiciais ainda sem solução.

Empresas brasileiras começam a incorporar essas ferramentas em seus modelos de negócio. Daniel Alencar, fundador da startup Pupilla, afirmou que utiliza inteligência artificial para produzir conteúdo em escala para marcas. Segundo ele, a demanda crescente por materiais de comunicação exige novas soluções. “Uma marca média ou grande faz mais de cem peças de comunicação por semana. Como vai ter foto, texto e vídeo para tudo isso?”, disse.

A proposta envolve gerar conteúdos com identidade visual padronizada e adaptá-los a diferentes públicos e plataformas. A startup atende empresas de diversos setores e opera com base em serviços de computação em nuvem, que oferecem acesso a diferentes modelos de IA.

De acordo com Alencar, os custos estão concentrados na infraestrutura necessária para sustentar a operação. Armazenamento de dados, processamento e gestão de grandes volumes de conteúdo representam despesas relevantes. Com a expansão da base de clientes, esses custos tendem a crescer.

O avanço da inteligência artificial indica uma mudança em curso na organização do trabalho. As experiências relatadas mostram um cenário em transformação, marcado por ganhos de eficiência e por incertezas sobre o futuro do emprego.

Fonte: Folha de São Paulo
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