A disputa pelo mercado brasileiro de delivery ganhou um novo capítulo com a ação movida pelo iFood contra a Keeta, plataforma ligada à gigante chinesa Meituan. A empresa brasileira acusa a concorrente de concorrência desleal e de tentar obter informações estratégicas por meio de contatos com funcionários e ex-funcionários da companhia.
O processo foi protocolado nesta terça-feira (19) na 1ª Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem da Capital, em São Paulo. Na ação, o iFood pede indenização de R$ 1 milhão e solicita que a Justiça reconheça a prática de crimes previstos no artigo 195 da Lei de Propriedade Industrial (LPI), que trata de concorrência desleal.
Segundo a empresa, representantes ligados à Keeta e à Meituan teriam abordado profissionais da plataforma com ofertas de conversas remuneradas em troca de informações internas consideradas estratégicas. O iFood também pede que a rival seja impedida de manter esse tipo de contato, sob risco de multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento.
A Keeta nega as acusações. Em nota, afirmou que atua “em conformidade com todos os requisitos locais” e declarou que não faz abordagens para os fins apontados no processo. A empresa também disse não ter recebido notificação judicial até o momento.
A ofensiva judicial ocorre em meio à intensificação da concorrência no setor de delivery no Brasil, especialmente após a entrada de grupos chineses no mercado nacional. O embate já envolve discussões no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), disputas comerciais e investigações sobre possíveis vazamentos de dados corporativos.
Investigação identificou reuniões pagas
A ação apresentada pelo iFood é resultado de uma investigação interna iniciada no ano passado. Segundo os documentos do processo, ex-funcionários da companhia participaram de reuniões virtuais organizadas por consultorias internacionais que buscavam informações sobre a operação da plataforma brasileira.
Um ex-colaborador, desligado em abril de 2025 após três anos na empresa, admitiu ter compartilhado dados internos em encontros online remunerados. Entre os temas discutidos estavam valores movimentados em cidades específicas, taxas cobradas de restaurantes parceiros e detalhes relacionados ao iFood Pago.
O profissional teria recebido R$ 5.500 pelas conversas, parte em dólar.
Segundo o processo, o iFood conseguiu na Justiça dos Estados Unidos autorização para obter registros do Zoom relacionados às reuniões. A companhia afirma ter identificado sete participantes com endereços eletrônicos ligados ao domínio “@meituan.com”.
O rastreamento de IPs indicou acessos realizados em São Paulo, Barueri e também em outros países, incluindo a China.
A investigação conduzida pela plataforma durou cerca de um ano. Nesse período, a empresa afirma que aproximadamente 240 funcionários foram procurados por cerca de 30 consultorias, muitas delas estrangeiras. As ofertas envolviam pagamentos entre US$ 400 e US$ 500 por hora para conversas sobre o mercado de delivery e a operação da companhia.
Concorrência no delivery se intensifica
Criado em 2011 na cidade de Jundiaí, no interior paulista, o iFood se consolidou como principal plataforma de delivery da América Latina. A empresa afirma contar atualmente com mais de 65 milhões de clientes e cerca de 500 mil estabelecimentos parceiros, movimentando aproximadamente R$ 8 bilhões por mês.
Já a Keeta iniciou operações no Brasil em outubro de 2025. A empresa anunciou investimento previsto de R$ 5,6 bilhões no país como parte da estratégia de expansão internacional da Meituan.
A controladora chinesa é considerada uma das maiores empresas de delivery do mundo. Segundo dados divulgados pela própria companhia, a plataforma atende cerca de 770 milhões de usuários por ano e processa, em média, 80 milhões de pedidos diários.
Além da China, a Meituan já atua em mercados como Hong Kong, Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
O avanço de novos concorrentes no Brasil ampliou disputas comerciais envolvendo contratos de exclusividade, taxas cobradas de restaurantes e condições de operação. Em março, a Keeta chegou a afirmar que acordos de exclusividade firmados por rivais dificultavam sua expansão no Rio de Janeiro.
Especialistas apontam limites legais
Especialistas em direito empresarial afirmam que o Brasil não possui uma legislação específica sobre espionagem corporativa. Mesmo assim, práticas desse tipo podem ser enquadradas como concorrência desleal com base na Lei de Propriedade Industrial.
A advogada Maria Cibele Santos, especialista em direito concorrencial no Costa Tavares Paes Advogados, afirma que tanto funcionários quanto empresas podem ser responsabilizados caso existam provas da irregularidade.
“Tem de ter a prova de que o empregado agiu em desconformidade à sua obrigação”, afirma.
Segundo ela, empregados envolvidos em vazamento de informações podem sofrer punições previstas na CLT, incluindo demissão por justa causa.
O advogado criminalista Marcelo Aith afirma que pesquisas de mercado e contratação de profissionais de concorrentes são práticas permitidas, desde que respeitem os limites legais.
“É um fundamento do sistema capitalista e da ordem econômica brasileira a busca de mercado e as pesquisas. Tudo está dentro das normas do jogo, desde que não se ultrapasse o que diz a lei”, diz.
Já Marcelo Alcides Carvalho Gomes, sócio da Dfexa Consultoria, avalia que a legalidade depende da forma como as informações são obtidas. Segundo ele, oferecer dinheiro em troca de dados estratégicos pode trazer consequências civis e criminais.
No processo, o próprio iFood reconhece que entrevistar funcionários de empresas concorrentes não é ilegal. A discussão central está na suposta tentativa de obtenção de informações sigilosas mediante pagamento.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/um-entregador-de-comida-com-caixas-de-comida_15038249.htm
