O treinamento de força pode desempenhar um papel importante na preservação da saúde cardiovascular durante o envelhecimento. Essa é a conclusão de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que observou a reversão de indicadores relacionados ao envelhecimento cardíaco em mulheres com 60 anos ou mais que praticaram musculação regularmente.
Os resultados foram publicados na revista Medicine & Science in Sports & Exercise, principal publicação científica do American College of Sports Medicine, e reforçam o potencial da musculação como estratégia preventiva para reduzir riscos cardiovasculares e preservar a capacidade funcional na terceira idade.
A pesquisa foi realizada pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Metabolismo, Nutrição e Exercício (Gepemene), vinculado ao Centro de Educação Física e Esporte (Cefe) da UEL.
Segundo o cardiologista Dr. Victor Duque Estrada Zeitune, especialista em Cardiologia Clínica com atuação em terapia intensiva e gestão hospitalar, a medicina preventiva representa a principal ferramenta para transformar essa realidade. Conforme o especialista, envelhecer de forma saudável está diretamente associado à atenção e ao cuidado constante com o coração ao longo de toda a vida.
Pesquisa acompanhou mulheres por dois anos
O estudo monitorou 64 mulheres saudáveis na pós-menopausa durante dois anos. Desse total, 33 participaram de um programa estruturado de musculação, enquanto 31 permaneceram apenas com suas atividades habituais, formando o grupo de controle. A média de idade das participantes era de 71 anos.
Mulheres com hipertensão ou diabetes também puderam integrar a pesquisa, desde que apresentassem essas condições controladas. Outro cuidado adotado pelos pesquisadores foi padronizar a alimentação dos dois grupos, garantindo ingestão mínima diária de 1,5 grama de proteína.
As participantes do grupo de treinamento realizaram musculação três vezes por semana. O programa era composto por oito exercícios, sendo quatro voltados aos membros inferiores e quatro destinados aos membros superiores. Cada atividade era executada em três séries de oito a doze repetições.
Indicador de envelhecimento cardíaco apresentou melhora
Ao final do período de acompanhamento, os pesquisadores verificaram diferenças importantes entre os grupos.
As mulheres que permaneceram sedentárias apresentaram aumento de 11% no índice de massa do ventrículo esquerdo, marcador relacionado ao envelhecimento do coração.
Já entre aquelas que participaram do treinamento de força, houve redução de 5,5% nesse mesmo indicador, sugerindo um efeito positivo da musculação sobre a estrutura cardíaca.
Além da melhora nesse parâmetro, o grupo que treinou registrou redução de 10% nos níveis de colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, diminuição de 8,9% na glicemia em jejum, melhora da pressão arterial e aumento tanto da força muscular quanto da massa magra.
Como o envelhecimento afeta o coração
O cardiologista Ricardo Rodrigues, professor da UEL e um dos autores do estudo, explica que um dos principais marcadores do envelhecimento cardíaco é a função diastólica, responsável pelo relaxamento do coração para receber o sangue proveniente dos pulmões.
Segundo o pesquisador, diferentes fatores contribuem para o enrijecimento do músculo cardíaco, entre eles obesidade, hipertensão, processos inflamatórios e o próprio envelhecimento natural do organismo.
Com o passar dos anos, parte das células musculares é substituída por tecido fibroso, reduzindo a capacidade de relaxamento do coração.
“O coração contrai normalmente porque as fibras que sobram, ao longo dos anos, são capazes de fazer a função sistólica normalmente, mas não relaxa bem. Por isso, o sangue que vem do pulmão, particularmente quando a pessoa anda, não consegue extravasar para o coração e o resto do corpo, o que causa a falta de ar.”
O especialista também destaca que essa alteração costuma ser frequente entre idosos e pessoas com hipertensão ou obesidade.
“A disfunção diastólica é muito comum em pacientes mais idosos, hipertensos e com obesidade. Andar e ter falta de ar pode ser um sinal de envelhecimento, de enrijecimento do coração, de que a função diastólica, que é do relaxamento, está piorando. E essa piora causa insuficiência cardíaca”, explica o cardiologista.
Benefícios vão além do ganho de massa muscular
Para Rodrigues, os efeitos observados no estudo demonstram que a musculação produz benefícios que ultrapassam o aumento da força física.
“Quando você submete o paciente a exercícios, controla melhor a pressão arterial, diminui gordura abdominal, melhora o músculo e com isso você desinflama, diminui a concentração das moléculas que atuam para o envelhecimento do coração.”
A insuficiência cardíaca, condição que pode surgir com a piora da função do coração, ocorre quando o órgão deixa de bombear sangue de maneira eficiente. Entre as principais causas estão complicações decorrentes do infarto, além de hipertensão, diabetes descontrolado e doenças que comprometem diretamente o músculo cardíaco.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a doença afeta aproximadamente 1,1% da população adulta brasileira e chega a atingir 3,3% das pessoas com mais de 60 anos.
De acordo com o pesquisador, durante muitos anos a musculação foi tratada apenas como complemento de programas de atividade física, sem protagonismo na prevenção de alterações cardíacas. Os resultados obtidos indicam que o treinamento de força pode assumir um papel mais relevante na preservação da saúde durante o envelhecimento.
“Não é apenas aumentar músculo, mas a função disso, que ajuda muito no dia a dia”, diz Rodrigues.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/retrato-de-um-aposentado-feliz-no-ginasio-uma-velhota-faz-esportes-em-simuladores-alegra-se-sorrisos-gosta-de-um-estilo-de-vida-ativo-e-saudavel_222410294.htm
