Na abertura da Feira Industrial de Hannover, na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a colocar os biocombustíveis no centro da agenda econômica brasileira. O evento, considerado o maior do setor industrial no mundo, recebe o Brasil como país convidado nesta 79ª edição. Ao longo da programação, Lula defendeu o etanol e o biodiesel como alternativas viáveis na transição energética e fez críticas diretas às restrições regulatórias adotadas pela União Europeia.
A participação brasileira ocorre em um momento de disputa por espaço no mercado europeu de energia limpa. Em diferentes compromissos, o presidente buscou rebater argumentos recorrentes no continente, especialmente os que relacionam a produção de biocombustíveis ao risco de impacto na segurança alimentar e ao avanço sobre áreas ambientais.
“Ninguém come biodiesel, ninguém come gasolina. As pessoas comem comida”, afirmou Lula, ao reforçar que o país possui capacidade agrícola suficiente para atender às duas demandas. Segundo ele, o Brasil reúne tecnologia e área disponível para ampliar a produção sem comprometer o abastecimento interno.
Durante o 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, o presidente destacou a existência de terras aptas à recuperação produtiva. “Se tem uma coisa que nós temos de sobra é terra fértil, agricultável para produzir. E quem quiser ir no Brasil nos ajudar, nós estamos colocando à disposição 40 milhões de hectares de terras degradadas que nós queremos recuperar”, disse.
Críticas à regulação europeia
A agenda na Alemanha tem sido marcada por uma tentativa de ampliar o reconhecimento dos biocombustíveis brasileiros no exterior. Em coletiva de imprensa, Lula classificou como “ideológica” a política da União Europeia que limita o uso de combustíveis produzidos a partir de culturas alimentares.
Atualmente, o bloco discute mudanças que podem enquadrar o biodiesel de soja na mesma categoria do óleo de palma. Caso a proposta avance, o produto brasileiro poderá ser excluído do mercado europeu a partir de 2030. O governo brasileiro atua para evitar esse desfecho.
Ao defender o desempenho do país no setor energético, Lula afirmou que o Brasil já alcançou a marca de 50% de fontes renováveis em sua matriz, índice que a União Europeia projeta atingir apenas em 2050. O presidente também mencionou o histórico nacional com o etanol, iniciado nos anos 1970, como exemplo de política de longo prazo.
Sinalizações da Alemanha
O primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, acompanhou parte da agenda e adotou um tom favorável à diversificação das soluções energéticas. Sem assumir compromissos concretos, indicou interesse em observar o modelo brasileiro.
“Não deveríamos descartar tecnologias que vão se tornar relevantes daqui a 30 anos. Temos mais de um bilhão de veículos que continuarão rodando. Não vai dar para resolver isso só com carro elétrico”, afirmou.
Merz também elogiou a atuação do Brasil na preservação ambiental e mencionou o papel do país em discussões climáticas recentes. “Respeitamos profundamente a forma como o senhor lida com esse valioso tesouro da humanidade”, disse, em referência à Amazônia.
Apesar da convergência no discurso, o tema dos biocombustíveis não foi incluído na declaração final das Consultas Intergovernamentais de Alto Nível entre os dois países.
Economia e entraves bilaterais
Outro ponto tratado durante a visita foi a negociação de um acordo para evitar a bitributação entre Brasil e Alemanha. A medida é discutida desde os anos 2000 e é considerada relevante para empresas que operam nos dois mercados, além de impactar trabalhadores e estudantes no exterior.
Segundo Merz, os governos decidiram intensificar as conversas sobre o tema. Ainda assim, não havia expectativa de um desfecho imediato durante a passagem de Lula pelo país.
O premiê alemão também mencionou o acordo entre União Europeia e Mercosul, destacando sua importância em um cenário internacional marcado por mudanças econômicas e geopolíticas.
Passagem pela feira e agenda empresarial
Após os compromissos oficiais, Lula percorreu o pavilhão brasileiro da feira, que reúne 140 empresas e startups, número recorde de participação nacional no evento. A movimentação atraiu atenção de visitantes, expositores e jornalistas.
O presidente visitou estandes de diferentes setores e chegou a subir em um caminhão desenvolvido no Brasil, movido a biocombustível. Também entrou em um protótipo de veículo aéreo apresentado por uma fabricante brasileira e passou por espaços de empresas da indústria automotiva, energia e tecnologia.
“O Brasil é um país que quer se transformar em uma economia rica. Nós cansamos de ser tratados como um país pobre”, afirmou durante o percurso.
No fim do dia, Lula seguiu para uma visita privada à sede de uma montadora em Wolfsburg, acompanhado de líderes sindicais. O momento teve caráter simbólico, já que, em uma viagem anterior ao mesmo local, ele ainda trabalhava como metalúrgico.
A viagem à Europa, iniciada em Barcelona na semana passada, termina nesta terça-feira, com uma escala em Lisboa antes do retorno ao Brasil.
Fonte: Folha de São Paulo
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