O aumento da expectativa de vida no Brasil e no mundo trouxe um novo desafio para a saúde pública: garantir que a longevidade venha acompanhada de autonomia, mobilidade e qualidade de vida. Nesse cenário, a saúde cardiovascular ocupa posição central. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, respondendo por cerca de 20 milhões de óbitos por ano, muitos deles considerados evitáveis.
Para o cardiologista Dr. Victor Duque Estrada Zeitune, especialista em Cardiologia Clínica com atuação em gestão hospitalar e terapia intensiva, a medicina preventiva é o principal instrumento para transformar esse cenário. Segundo ele, envelhecer com saúde depende diretamente do cuidado contínuo com o coração ao longo da vida. “A prevenção permite identificar fatores de risco antes que se tornem doenças estabelecidas. Quando atuamos precocemente, conseguimos preservar função cardíaca, independência e qualidade de vida”, afirma.
O impacto do envelhecimento no sistema cardiovascular
O envelhecimento provoca transformações fisiológicas no sistema cardiovascular. Estudos publicados no Journal of the American College of Cardiology demonstram que, com o passar dos anos, as artérias tendem a perder elasticidade, tornando-se mais rígidas, o que contribui para o aumento da pressão arterial. O músculo cardíaco pode apresentar redução da capacidade de relaxamento, e as válvulas do coração também passam por mudanças estruturais.
Essas mudanças podem contribuir para o desenvolvimento de hipertensão e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, condição mais comum em idosos. Quando não diagnosticadas, essas alterações podem evoluir para falta de ar, cansaço progressivo e limitação funcional.
Pesquisas na área de cardiologia estrutural também mostram que as válvulas cardíacas sofrem processos degenerativos progressivos, como calcificação e espessamento, que podem evoluir para estenose ou insuficiência valvar. Dados epidemiológicos internacionais indicam que a prevalência de estenose aórtica significativa aumenta de forma expressiva após os 65 anos.
O cardiologista explica que essas transformações fazem parte do processo biológico, mas não devem ser confundidas com doença inevitável. “Envelhecer não significa necessariamente adoecer. O que faz diferença é monitorar essas mudanças e intervir quando surgem sinais de sobrecarga cardíaca”, ressalta.
Mortes cardiovasculares são, em grande parte, evitáveis
A literatura científica reforça o papel da prevenção. Estudo global publicado no periódico The Lancet sobre carga mundial de doenças aponta que fatores como hipertensão, colesterol elevado, tabagismo, diabetes e obesidade estão entre as principais causas de morte cardiovascular precoce.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que a hipertensão arterial atinge cerca de 25% da população adulta, percentual que cresce significativamente após os 60 anos. A pressão elevada é considerada o principal fator de risco isolado para infarto e acidente vascular cerebral.
Segundo Dr. Victor Zeitune, o controle rigoroso desses indicadores modifica a trajetória de envelhecimento cardiovascular. “Quando mantemos pressão, glicemia e colesterol dentro das metas recomendadas por diretrizes médicas, reduzimos de forma significativa o risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca”, afirma.
Sintomas discretos e diagnóstico precoce
Após os 60 anos, doenças cardíacas nem sempre se manifestam com sinais clássicos. Pesquisas publicadas no Circulation, da American Heart Association, mostram que idosos podem apresentar sintomas atípicos, como fadiga progressiva, redução da tolerância ao esforço, tonturas e leve falta de ar.
A perda gradual de capacidade funcional não deve ser automaticamente atribuída apenas à idade, aponta o médico. “Se o paciente começa a se cansar com atividades que antes realizava com facilidade, é preciso investigar. O envelhecimento saudável não implica limitação abrupta da rotina”, explica.
Exames como eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico e monitorização ambulatorial da pressão arterial são ferramentas fundamentais para detectar alterações estruturais e elétricas do coração em fases iniciais.
Estilo de vida e autonomia na maturidade
Estudos populacionais de longo prazo, como o Framingham Heart Study, demonstram que a adoção de hábitos saudáveis reduz significativamente o risco de eventos cardiovasculares ao longo da vida. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, manutenção do peso adequado e abandono do tabagismo estão diretamente associados à maior longevidade com qualidade.
A prática de pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, recomendação presente nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde, contribui para melhora da função vascular, controle metabólico e redução da inflamação sistêmica.
Para o cardiologista, a estratégia deve ser individualizada. “Cada paciente tem um histórico clínico, fatores genéticos e contexto de vida diferentes. A medicina preventiva precisa considerar essas particularidades para ser realmente eficaz”, afirma.
Prevenção para trazer autonomia e independência
Com o aumento da expectativa de vida, que no Brasil já ultrapassa os 75 anos segundo dados do IBGE, cresce também a necessidade de políticas e condutas voltadas ao envelhecimento ativo.
Para Dr. Victor Zeitune, cuidar do coração é preservar a autonomia. “O sistema cardiovascular sustenta todas as funções do organismo. Manter sua integridade significa garantir mobilidade, clareza mental e independência por mais tempo”, conclui.
A ciência aponta caminhos claros: prevenção, acompanhamento regular e escolhas saudáveis ao longo da vida são determinantes para transformar longevidade em qualidade de vida.
